quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Avô que eu não conheci

Essa eu lembrei hoje de manhã cedinho.

No alto dos meus 6 anos de idade ganhei um gravador do meu pai, que nunca foi muito fã de ajudar na educação ou de comprar arrroz, feijão e bolacha que é o que criança pequena precisa, mas, que vez ou outra aparecia com um presente pra mim.
Ai que estava ouvindo os sucessos no meu gravadorsinho e não sei porque cargas d'agua resolvi chorar e chorar e chorar e fiquei muito revoltada com o mundo (as musicas da xuxa são mesmo de cortar o coração). E quando minha vó me perguntou o motivo do meu choro eu disse que era porque estava com saudade do meu avô. Óbvio que ela caiu na gargalhada porque meu avô morreu quando a minha mãe era criança, naquela época nem foto do vô Manoel não tinha.
Ai que emputecida com a falta de sensibilidade dela eu disse que ia fujir de casa e que ela não prestava pra nada e que bom mesmo nessa vida só mesmo o meu avô.
Peguei as minhas coisas ( na verdade peguei só o gravador. Porque criança é assim: acha que precisa de muito pouco pra sobreviver ) e fui embora daquele lar de pessoas ingratas e que não respeitavam o meu choro.
Moravamos em um apartamento e eu desci e fiquei na portaria do prédio chorando horrores. Quanto mais a xuxa cantava mais eu chorava.
Até que a apareceu um monte de criança me chamando pra brincar e eu dizendo que não podia porque estava com saudades do meu avô. Minha avó apareceu pra me consolar e no alto dessa confusão toda, seu Hipólito que era nosso vizinho e era advogado me convenceu que agente só tem saudade daquilo que agente conhece e que se eu nunca conheci meu avô não podia ter saudades dele. Ai eu leventei, sacodi a poeira e dei a volta por cima. Botei a Xuxa pra calar a boca, dei o gravador pra mim vó guardar e fui brincar de correr que era disso que as crianças daquela época gostavam.

Porque saudade agente só sente daquilo que agente conhece.


ps: Seu Hipólito além de um nome engraçado tinha um golsinho quadrado branco com um adesivo colado:
"Consulte sempre um bom advogado."
Na falta do pscólogo vai o advogado mesmo.

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