Os dois foram criados juntos. Ela três anos mais velha. Andaram de bicicleta, assistiram a desenhos animados, estudaram na mesma escola, brincaram de pega-pega, esconde-esconde, fizeram cabana no quintal, deram banho no cachorro, foram na padaria, compraram figurinhas, albuns, doces, chicletes.
O tipo de amizade sincera que nasce na infância e que perde um pouco a força na juventude, porque as escolhas não são as mesmas e porque as amizades mudam e muda também agente.
Quando pequeno ele era baixo e magro e tinha o cabelo bem escuro e encaracolado. Os olhos pretos pareciam duas jabuticabas brilhantes. A mãe trabalhou a vida toda pra vida toda pra garantir o sustento, o estudo e o lazer. Trabalhava e ainda trabalha como enfermeira em dois empregos, 12h diárias. Compraram um apartamento melhor que a casinha apertada e mal localizada que moravam antes. Compraram um computador e colocaram internet.
As vezes as oportunidades são parecidas, mas a forma como cada um tende a decidir e levar a sua propria vida é que muda e aí começam os desencontros. Nós somos as escolhas que nós fazemos. Nem sempre certas, mas ainda sim nossas.
A noite ela teve dificuldades para dormir pensando como ele estaria agora dormindo entre pessoas que já mataram, roubaram, usaram drogas e que não tiveram a mesma vida e a mesma educação que ele. Será que esta com frio, com fome, com sede, com medo? Em que momento foi que esta escolha foi tomada? Que futuro será que o espera? Aonde foi parar aquele menino de cabelos encaracolados que dividia as brincadeiras da infância e aquela fase de inocência com ela?
Nós somos o fruto das nossas escolhas. Não é tão fácil julgar e condenar quando a escolha errada já dividiu um chocolate com você aos cinco anos de idade.
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