quinta-feira, 26 de maio de 2011

ela

Ela já esta bem velhinha e embora eu não goste de falar sobre isso, todos os dias eu olho pra ela e fico me perguntando por mais quanto tempo agente vai estar juntas. Ela é teimosa feito uma criança e as vezes ela fala algumas coisas que deixam agente chateado. Ela precisa tomar remédios para o coração e para a pressão porque o coração dela já não é tão forte. Vira e meche ela deixa escapar alguns xixis e cocos. Eu acho que ela não tem mais a mesma capacidade de segurar as necessidades. Sei lá. Ela adora um danone, um chocolate e uma dessas tranqueiradas que eu como. Então, sempre que vamos as supermercado ela dá a desculpa de que esta comprando pra mim, mas, agente sabe que não é. Todo mundo finge que acredita porque né? Aos 83 anos pode tudo. Vez ou outra minha mãe deixa ela cozinhar e ela faz um arroz bem papa. Ao melhor estilo 'unidos venceremos' e ninguém gosta porque fica feio e com a textura meio estranha. Mas, ela adora e me disse que o 'arroz papa' não faz mal pra ela e o arroz normal faz. Céus, talvez os pesquisadores e cientistas devessem dedicar um tempo a descobrir quais são os beneficios disto. No final das contas agente comeu arroz papa a semana inteira. E ontem eu disse: ' Já chega né? Agora é nossa vez de comer arroz normal!'
Não há uma só vez que você sente para conversar com ela que você não de risada. Seja pelo jeito que ela fala, sela pelas perolas que ela solta, seja pela audição que esta cada vez pior. E olho e penso: 'Deus, quando ela for embora eu não quero esquecer disso nunca.' E é por isso que é bom escrever pra eu me lembrar o quanto ela é vaidosa, o quanto é carente, espontanea, cabeça dura. O que mais uma pessoa de 83 anos pode querer na vida? Não há mais tempo para trabalhar, não há mais tempo para querer viajar ao redor do mundo? Os filhos já estão adultos e os netos prestes a criar suas proprias familias.
O que mais ela pode querer da vida senão ser feliz, dessa felicidade simples que agente sente nas pequenas coisas. Dessa felicidade descompromissada que acontece diariamente sem que agente não precise fazer nada pra isso.
Eu não quero nunca esquecer a felicidade dela no dia das mães quando eu dei um par de brincos dourados com algumas pedrinhas. Bem bonito e discreto porque ela tem de ser uma velhinha elegante. E ela arregalou aqueles olhinhos pequenos e já sem brilho e disso: 'É ouro?'

A mim cabe chegar todos os dias cançada do trabalho e perguntar quais são as novidades mesmo sabendo que não há novidades. Então, ela me conta as noticias que viu na televisão. Tudo meio distorcido porque veja bem, ela não escuta direito nem o que agente fala. Vai escutar o que a reportagem disse. Tudo bem não importa. Então, ela me conta que tomou banho (isso no dia que toma) e que o cachorro fez trilhões de cocos no dia, que ele não quis almoçar. Ela chama ele de bandidão.

E quase sempre agente fala alguma besteira e ela cai na gargalhada.
E eu repito, não quero nunca esquecer o rosto dela gargalhando. Os olhinhos dela apertadinhos meio que grudados sei lá. E agente começa a rir da cara dela rindo.

amo
muito
tudo
isso

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