Não há uma só vez que você sente para conversar com ela que você não de risada. Seja pelo jeito que ela fala, sela pelas perolas que ela solta, seja pela audição que esta cada vez pior. E olho e penso: 'Deus, quando ela for embora eu não quero esquecer disso nunca.' E é por isso que é bom escrever pra eu me lembrar o quanto ela é vaidosa, o quanto é carente, espontanea, cabeça dura. O que mais uma pessoa de 83 anos pode querer na vida? Não há mais tempo para trabalhar, não há mais tempo para querer viajar ao redor do mundo? Os filhos já estão adultos e os netos prestes a criar suas proprias familias.
O que mais ela pode querer da vida senão ser feliz, dessa felicidade simples que agente sente nas pequenas coisas. Dessa felicidade descompromissada que acontece diariamente sem que agente não precise fazer nada pra isso.
Eu não quero nunca esquecer a felicidade dela no dia das mães quando eu dei um par de brincos dourados com algumas pedrinhas. Bem bonito e discreto porque ela tem de ser uma velhinha elegante. E ela arregalou aqueles olhinhos pequenos e já sem brilho e disso: 'É ouro?'
A mim cabe chegar todos os dias cançada do trabalho e perguntar quais são as novidades mesmo sabendo que não há novidades. Então, ela me conta as noticias que viu na televisão. Tudo meio distorcido porque veja bem, ela não escuta direito nem o que agente fala. Vai escutar o que a reportagem disse. Tudo bem não importa. Então, ela me conta que tomou banho (isso no dia que toma) e que o cachorro fez trilhões de cocos no dia, que ele não quis almoçar. Ela chama ele de bandidão.
E quase sempre agente fala alguma besteira e ela cai na gargalhada.
E eu repito, não quero nunca esquecer o rosto dela gargalhando. Os olhinhos dela apertadinhos meio que grudados sei lá. E agente começa a rir da cara dela rindo.
amo
muito
tudo
isso
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